domingo, 14 de junho de 2009

Crediário


aceitar o amor
é ser paciente
e ser conivente
com coisas com as quais
você não concorda.

é preciso ser guerreiro,
se entregar por inteiro
antes mesmo de a guerra começar.

amar não é pra qualquer um,
mas pra quem tem sangue frio
misturado com sangue quente,
porque o amor é sempre rival
do seu bem estar.

permitir o amor
não é viver eternamente apaixonado
nem ignorar a paixão,
mas deixar que ela te visite
sempre que possível,
às vezes como uma amante
entrando pela janela
ou como um credor
batendo na porta da frente.

o amor não é vilão nem mocinho,
é neutro e fundamental.
amar é um treinamento de guerra.
é ver a pessoa amada com outro alguém
sem desejar vingança,
querer apenas o seu bem,
aceitar o papel de coadjuvante.

o amor é a mão
que tira de dentro da sacola
a esmola que você colocou.
amar é viver endividado
pagando parcelas infinitas
com juros absurdos,
ter sempre o saldo negativo,
mas estar feliz e satisfeito
com a compra que fez.

Parra (16/10/2007)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Balada do Amor Através das Sociedades




(Paródia ao texto de Carlos Drummond de Andrade, "Balada do Amor Através das Idades")

Eu te gosto, você me gosta,
desde tempos imemoriais.
Eu era de Sodoma, você de Gomorra,
de Gomorra mas não puta.
Deus resolveu destruir tudo
e Abraão não pode impedir.
Matou, destruiu, morremos.

Virei uma poderosa rainha,
com um belo rei de fachada.
Na porta de meu castelo
encontrei-a novamente.
Mas quando vi você nua,
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
mandei soldados para te salvar
e nenhum me obedeceu.
Desci em um pulo desesperado
e o leão comeu nós duas.

Depois fui uma louca excomungada,
chamavam-me de feiticeira.
Fiz uma magia,
achei seu esconderijo.
O bispo inquisidor descobriu nosso caso
e nos jogou na fogueira.

Depois (tempos mais amenos)
fui prostituta na França,
espirituosa e devassa.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de conventos,
te escondi em meu cabaré,
e enfim fomos levadas à guilhotina.

Hoje sou moça moderna,
rio, pulo, danço, choro,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma mulher notável,
chora, dança, pula, ri.
Os outros é que não fazem gosto.
Mas depois de mil peripécias,
aprendemos que a nossa felicidade
depende somente de nós,
e não da sociedade.

Rach la Flor
17 04 2007

terça-feira, 17 de março de 2009

Boas Vindas


H
ouve um dia em que eu parei. Desliguei meu maquinário interior, fechei meus livros e apaguei. Entrei em coma. Nada pude fazer. Estava inerte. Um cadáver sem chance de ser ressuscitado. Meus olhos fechados, descansados. Meu corpo pôde sentir a deliciosa sensação de não ter obrigações, de não precisar de levantar ou mexer um dedo sequer. Nesse dia fechei pra balanço.

Em meu coma "auto-induzido" pude achar o caminho para uma reflexão, para o conserto de minhas idéias. Descalcei as sandálias, deixei toda a poeira do lado de fora e entrei sem bater no meu universo paralelo. Tirei meu casaco, acomodei-me. Sentada ao meu lado, reconheci minha vida. Não é bela, mas tem seu charme.

Bem-vindos a ela.